Insanidade
Maio 14, 2008
No dia 4 de outubro de 1999, Damião Ximenes Lopes, que estava internado em uma clínica psiquiátrica em Sobral no Ceará veio a falecer. O exame necroscópico indicou que ele sofreu maus tratos, além de constatar hematomas e lesões produzidas por instrumentos contundentes. O Brasil, após 5 anos pouco fez para apurar as reais circunstâncias da morte do senhor Ximenes Lopes, e coibir o comprovado tratamento desumano das clínicas psiquiátricas. A irmã do cara morto apresentou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que acabou, após apurações, por levá-lo à Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A Corte decidiu que o Brasil era responsável por violações à Convenção Americana de Direitos Humanos, no que dizia respeito à garantia à vida, à integridade pessoal, à proteção judicial e garantias judiciais.
Pq eu to falando isso ?
Ontem foi aniveresário da lei que aboliu os hospitais psiquiatricos aqui na Itália… os populares manicomios a idéia é que pessoas com problemas psiquiatricos façam o tratamento não fora do convívio social, mas dentro dele. Eu não sabia nada disso até ontem qdo fui convidado por alguns amigos italianos pra jantar.
O restaurante tinha uma peculiaridade…. todos os que trabalham nesse restaurante são doentes mentais, sob a direção de um psiquiatra. A idéia é a de que os doentes mentais precisam de alguma forma se integrar À sociedade e não serem removidos eternamente desse convívio… ontem eu conheci o psiquiatra responsável pelo restaurante, que era um lugar super legal, com uma boa decoração e tinha a casa cheia, o psiquiatra era um bixo-grilo total, um tipo de gente que gosta de conversar e jogar conversa fora… e obviamente, estava super orgulhoso do restaurante.
Me diverti, jantamos no terraço, que tinha uma bonita vista para o Mole, o museu de cinema aqui de Turim, e o grande cartão-postal aqui.
Qdo vc tem hospitais fechados é muito fácil ocorrerem abusos, torturas e até morte como no caso do Ximenes Lopes, a Itália percebeu isso faz tempo… espero que o Brasil perceba logo.
Toro!
Maio 10, 2008
Turim tem dois times de futebol, um é a Junventus, time dos Agneli a família que é dona de Turim da FIAT, e que protagonizou um mega escandalo de corrupção dois anos atrás com partidas compradas e coisas assim. Tanto que cairam pra 2ª divisão por causa disso. O outro time que tem aqui é o Torino, bem menos proeminente, é frequentador da 2ª divisão italiana, embora nessa temporada conseguiram chegar e permanecer na 1ª divisão !! O Torino tem a fama de ser o time de futebol mais azarado do mundo, e não é pra menos… na década de 40 o Torino levava tudo e estava prestes a conquistar de novo o campeonato italiano até que o avião que levava o time inteiro,dirigentes, e o técnico bateu numa montanha perto de Turim chamada Superga. Morreu todo mundo, o time inteiro simplesmente acabou. Sábado passado foi aniversário dessa tragédia e quem tiver interesse em saber a história do Torino e o que aconteceu, eu recomendo esse post.
Pois bem, voltando a 2008, há umas duas semanas fui ao estádio assistir Torino vs Inter de Milão. Eu gosto de ir a estádios, ou mais pracisamente ao Morumbi ver os jogos do São Paulo e confesso que sinto falta disso especialmente agora em época de Libertadores… o clima do estádio e a torcida fazem disso uma experiência sociológica interessante. De verdade, é uma das coisas mais divertidas ver 50, 60, 70 mil pessoas pulando e gritando ajudando o time, sei lá juro que não consigo descrever muito a não ser dizer que é divertido.
Bom posso dizer que por aqui tb é divertido mas é diferente. Pra começar aqui é mil e uma vezes mais civilizado que no Brasil. Sem revistas da polícia, e muitos idosos e famílias inteiras no estádio tb. É engraçado vc ver velinhos arrumados com terno e gravata e boné ou cachecol do Torino, e eles não são poucos… fora que a menos que vc fique atrás de um dos gols, vc corre o risco, como aconteceu comigo, de ter alguém torcendo pro outro time do seu lado. É bizarro, não ? Fiquei imaginando se isso podia acontecer no Brasil… Mas por outro lado perde um pouco do clima de estádio, não existe aquela solidariedade, vc não conversa com quem tá do seu lado. Uma das coisas mais divertidas de ir em estádios é justamente conversar com pessoas que vc jamais conversaria de outra forma.. é engraçado, pessoas se abraçam, comemoram juntas e vc nunca viu elas na vida e provavelmente não vai ver mais… coisas de estádio. Aqui não senti isso.
Mas por outro lado, a torcida do Torino, que fica atrás do gol, no que eles chamam de curva maratona deu show. Os caras gritavam e pulavam o tempo todo, tentando empurrar e motivar o time beeem limitado. O estádio Olimpico é pequeno, deve caber umas 30 mil pessoas no máximo… nada comparado ao Morumbi com 70, ou quase 80 mil numa final de Libertadores por exemplo.
O Torino começou jogando bem, botando pressão no inter que armou uma bela retranca e jogava no contra-ataque… no Brasil o Toro seria a equipe grande e a Inter a equipe pequena mas aqui não é bem assim, fora que o Torino tem um time beeem limitado. A exceção é o camisa 10, um tal de Eugenio que correu e se matou em campo. Mas no geral, o Torino foi um time esforçado e disciplinado no 1º tempo, até que no finalzinho os caras tomaram um gol depois de uma falta que a Inter cobrou.
O gol desmontou o Toro.
Os caras ficaram perdidos, e passaram o 2º tempo inteiro perdidos depois do gol, e a partida terminou assim, 1 a 0 sem muita raça do Torino no 2º tempo. Eu me diverti, é verdade com a minha ida ao estádio, sentir de novo esse clima de estádio, de torcida é mto bom. Ver o jogo de futebol onde ele efetivamente acontece, xingar o arbitro, torcer pelo time, apoiar os jogadores, quase jogar junto, esse tipo de coisa me fez sentir um pouco em casa.
O Torino hj em dia não é nem de longe um time competitivo, mas é um time simpático, me identifiquei com ele, e a torcida. Acho que vou mais vezes ao estádio ainda que seja pra ver os caras perdidos em campo.
1º di magio
Maio 7, 2008
Eu confesso que nas últimas semanas realmente não estava morrendo de amores pela Itália… mais especialmente depois das eleições que foram no meio de abril. Aqui, ao contrário do Brasil os caras têm dois dias de votação, domingo e segunda, e apesar do voto ser facultativo a Itália tem uma das maiores taxas de comparecimento da zoropa. Tanto assim que na sexta-feira anterior à eleição não tivemos aula para que os italianos do curso pudessem ir para suas cidades, todos foram, inclusive os que moravam do outro lado do país, na Sicilia, meu colega de quarto tb voltou pra sua cidade, e os colegas italianos da minha namorada em Paris fizeram o mesmo. Louvável essa tara dos italianos pelas eleições, não fosse pelo fato de que os caras elegeram o Berlusconi, de novo pra presidente. Apoiado por um bando de malucos e com vinculos duvidosos com o “faxismo”. A notícia que eu coloquei aí em baixo, e que foi tirada da folha dá uma boa idéia da coisa. O berlusconi ganha de qualquer presidenciável, presidente ou ex-presidente ainda vivo que o Brasil possui. Uma vez, por exemplo, comparou o Schroeder, o chanceler alemão a um guarda de campo de concentração. Genial, exceto pelo fato de que o cara é um chefe de Estado, e brincou com um assunto muito muito muito sensível pros alemães.
Fora isso o cara é dono de uma boa quantidade de televisões e jornais, e até do Kaká. Sim, o cara é dono do A.C. Milan. Não existe nada parecido no Brasil, até pq nominalmente nenhum candidato pode ser dono de um meio de comunicação em massa. Não vou falar sobre como comunicação em massa afeta pesadamente a democracia e perverte a idéia original de política… talvez um dia eu escreva sobre isso… se alguém tiver interesse, eu recomendo a leitura da Dialética do Esclarecimento do Horkheimer e Adorno, especialmente o capítulo sobre o Iluminismo e mistificação das massas e tb a Mudança Estrutural da Esfera Pública do Habermas. Meu ponto é que o cara passou a vida toda como empresário, o cidadão Kane Italiano, e decidiu entrar pra política…. no final a coisa pública vira coisa privada não gosto dessa promiscuidade entre público e privado. Tb devo dizer que por aqui Berlusconi não é nem de longe unanimidade, não conheço ninguém que votou nele. Mas até aí o problema não é meu.
Isso começou a ser meu problema por conta da nova política com imigrantes… não que eu tenha qquer problema com as autoridades daqui, mas me senti pessoalmente ofendido com com os ataques do Mussolini Berlusconi e seus aliados aos imigrantes, meio que culpando eles pela desgraça da Itália. Pelas ultimas duas semanas, a questão dos imigrantes ocupou as manchetes dos jornais por aqui, não posso deixar de achar que isso é uma bela forma de desviar o problema, populismo barato do tipo que se vê ou via na América do SUl.
Bom era nesse estado de espírito que eu estava até 1º de maio. Estava aproveitando a visita da namorada, íamoas ao museu egípcio, mas no meio do caminho, na Via Roma, uma das principais de Turim, acabamos assistindo as comemorações do dia do trabalho. Foi de lavar a alma. Sindicatos, partidos, estudantes, todo tipo de organização participou… óbvio, menos aquelas ligadas ao atual governo. Foi uma comemoração e tanto… operários carregavam orgulhosos estandartes das suas organizações. Engraçado foi a banda dos operários da GTT, a empresa responsável pelo transporte público aqui tocando o hino italiano e….. a internacional comunista! é engraçado se vc pensar que eles são os caras chatos que controlam se vc pagou o seu bilhete de onibus ou não. Depois foi a vez dos partidos, lógico… só os partidos de centro-esquerda, esquerda e anarquistas, embora os últimos não propriamente um partido:P
Um dos mais aplaudidos foi o PD, Partido Democratico, que perdeu a eleição pro berlusco… a ala jovem passou cantando marchas anti-”faxistas”, depois passou a esquerda democrática igualmente bastante aplaudida, e estudantes universitários. Eles faziam festa, comemoravam e protestavam no 1º de maio. Engraçado que as pessoas no desfile eram pessoas normais, muitos idosos, outros com filhos e netos, carregando orgulhosos as faixas do seu partido. Eu sou apaixonado por Democracia… a iéia de pessoas comuns efetivamente buscando serem ouvidas, não o político profissional, não o militante profisssional, mas gente razoavelmente comum, e de todos os tipos me encanta.
Eu e minha namorada estávamos felizes vendo os desfiles, até que chegou o Partido Comunista italiano… cara,, eles eram o que mais se aproximavam do fascismo… primeiro carregando na ponta do carro de som, como se fosse o grande estandarte das lutas comunistas a bandeira da China (Pô … logo a China ?!!) Depois que eles atrasavam o desfile pq toda vez que tocava uma música importante pra eles, eles paravam, erguiam o braço direito com os punhos fechados e esperavam a música acabar (isso me lembrou regimes totalitários…) Uma dessas músicas era… tchan tchan tchan… o hino da União Soviética em Russo!!! E pra terminar fotos de Marx, Engels, Lenin e…. Stalin. Sempre tive duvidas se o comunismo do Marx era democrático já que passava pela ditadura do proletariado… depois de 1º de maio isso ficou ainda mais forte.
Depois do PC veio o Partido Comunista Refundado… até eu que tive pouquissimo contato com o PC italiano percebi que precisava de uma reformulação ou refundação, acho que os caras tb pensaram nisso. O desfile seguiu com varias entidades, anarquistas e até imigrantes reivindicando, participando. Tinha uma banca de camisetas na rua, e a camiseta mais vendida foi, obviamente a “eu não votei no Berlusconi”.
Essas comemorações me deixaram feliz! Fiz as pazes com a Itália, gosto de democracia, realmente gosto. É um bom antidoto pra populismos bestas.
É nesse país que eu moro…
Maio 2, 2008
Ex-fascista vai presidir a Câmara na Itália
Gianfranco Fini, que reformulou partido dos herdeiros de Mussolini, defende linha dura contra imigrantes
DA REDAÇÃO
Gianfranco Fini, 56, ex-saudosista do fascismo e hoje líder da direitista Aliança Nacional, foi ontem eleito presidente da Câmara dos Deputados italiana. Na segunda-feira, Gianni Alemanno, do mesmo partido, se elegera prefeito de Roma, o que dá a essa corrente conservadora, aliada do futuro primeiro-ministro Silvio Berlusconi, proeminência institucional inédita desde o final da Segunda Guerra.
Fini, que é visto como o provável sucessor político de Berlusconi, reuniu ontem, na quarta votação em plenário, o apoio de 355 dos 611 deputados eleitos em 13 e 14 de abril.
Ele mudou o rumo de seu partido, procurando dissociá-lo do fascismo e dos saudosos do ditador Benito Mussolini (1922-1943). Militante desde os 17 anos, em 1987 ele sucedeu Giorgio Almirante na presidência do neofascista MSI (Movimento Social Italiano).
Em 1994, o partido foi dissolvido, com a criação em seu lugar da atual Aliança Nacional, que se apresenta como um partido republicano da direita, defensor do pluripartidarismo e sem o ranço anti-semita.
Ainda ontem, em seu primeiro discurso, ele apelou aos povos do Mediterrâneo -judeus, cristãos e muçulmanos- ao mútuo respeito de suas diferentes identidades, como forma de evitar os extremismos.
Também elogiou o papa Bento 16, “guia espiritual da maioria dos italianos” e anunciou que instalaria na Câmara uma sala para fumantes. Ele próprio é um fumante compulsivo.
Fini foi ministro das Relações Exteriores entre 2004 e 2006, no último governo Berlusconi, derrubado pelas legislativas que deram lugar ao efêmero governo de centro-esquerda de Romano Prodi.
Em visita a Israel, em 2003, ele qualificou o fascismo de “a expressão do mal absoluto” e criticou as leis de discriminação racial adotadas na Itália para seguir o exemplo da Alemanha de Hitler. Também afirmou ter mudado de idéia com relação a Mussolini, por ele designado, dez anos antes, como “o maior estadista italiano do século 20″.
Durante a campanha legislativa, a Aliança Nacional atribuiu o aumento da criminalidade à política de tolerância com os imigrantes. Seus dirigentes chegaram a defender a derrubada com tratores, em cidades italianas, dos acampamentos de ciganos vindos da Romênia.
A Reuters lembrou ontem que, ainda na semana passada, em campanha por Alemanno à Prefeitura de Roma, Fini interpelou imigrantes numa feira em praça pública, forçando-os a mostrar papéis de residente.
Paradoxalmente, Fini passa por um moderado diante de outro aliado de Berlusconi. Umberto Bossi, líder da Liga Norte, chegou a defender recentemente o uso de armas de fogo para forçar os imigrantes ilegais a deixarem a Itália.
A eleição do início de abril deu maioria à coalizão de Berlusconi no Parlamento. A centro-esquerda liderada pela Partido Democrático, última versão do outrora poderoso Partido Comunista Italiano, ficou em minoria. A esquerda e os verdes não conseguiram o percentual mínimo de votos para ter representação parlamentar.


